Uma empresa de pizzas congeladas une esforços na devolução de obras de arte roubadas pelo regime Nazi

Dr. Oetker, conhecido pela marca Ristorante, face de uma empresa de pizzas congeladas, é também possuidor de uma colecção de arte. A empresa colecciona obras não visíveis a público que conta já pelas centenas. Desde 2015, a empresa contratou uma equipa para levar a cabo uma investigação aprofundada das obras da sua colecção, nomeadamente a respeito da sua proveniência. O resutlado foi a descoberta de algumas obras que pareciam ter sido resultados de pilhagens Nazis.

A empresa Dr. Oetker lidera agora a título de exemplo a forma como a arte roubada deve ser lidada perante os descendentes que procuraram reaver os bens dos seus antepassados.

A investigação começou também com enfoque na história da própria empresa, dada a aproximação de Dr. Oetker ao regime Nazi e a Hitler, algo comum às empresas na Alemanha Nazi: o neto do fundador Dr. Oetker, e responsável pelo aumento da colecção, Rudolf-August Oetker, foi voluntário na SS e treinou no campo de concentração de Dachau antes de se tornar presidente da empresa em 1944. A empresa esteve tambem ligada a accionistas que se dedicaram à fabricação de munições para o Terceiro Reich, igualmente envolvidos no emprego de trabalhos forçados.

O quadro acima – Frühling im Gebirge/Kinderreigen, de Hans Thoma – foi comprado por Rudolf-August em leilão em 1954. Mas antes de ter esse destino, a obra pertencia a um casal de juseus, Albert e Hedwig Ulmann, tendo a esposa vendido forçosamente o quadro depois da morte do marido, por fim a poder escapar do país. Os seus herdeiros listaram-no no Lost Art Internet Data Base, um site financiado pelo governo para promover a procura por arte roubada pelo regime Nazi. Foi durante o processo de investigação que foi possível compreender que o quadro listado pelos herdeiros Ulmann era o mesmo da colecção, e após um contacto com estes, o caso ficou resolvido em Janeiro.

Durante o Terceiro Reich, milhares de obra de arte foram roubadas da casa de Judeus expropriados e enviados para campos de concentração, e outras dezenas foram vendidas forçosamente, a preços muito baratos, por aqueles que procuraram fugir do país o mais depressa possível. A Alemanha tem reunido esforços para reencontrar estas obras e devolver aos seus herdeiros, resultando inclusive de lutas em tribunal com museus que acabam por deter na sua colecção algumas dessas obras pilhadas. A equipa da Dr. Oetker reune agora também esforços para identificar a proveniência das obras da sua colecção e, perante aqueles que provenham de roubos da parte de membros Nazis, efectuar a sua devolução, um anúncio feito pela própria companhia no passado mês de Outubro depois de chegar à conclusão que havia a possibilidade de parte da colecção provir de roubo.

O trabalho não vem sem custo: a pesquisa é muito difícil, pois para conseguir cruzar a informação da base de dados de arte roubada é necessário que os herdeiros tenham conhecimento de que a obra desapareceu, o que nem sempre é o caso. Existe também a possibilidade de a obra ter atravessado o atlântico, e nesse caso, o custo de transporte é altíssimo, além de que a investigação poderá estender-se por mais de um ano.

O valor de uma pesquisa aprofundada pela proveniência de uma obra é caríssima e não garante frutos, razão pela qual muitos museus e instituições não o fazem perante a sua própria colecção. Quando, em 2013, cerca de 1500 obras de arte roubadas foram encontradas no apartamento de Cornelius Gurlitt, colecção herdada pelo pai que supostamente adquirira as obras nas décadas de 1930 e 1940, a maioria de mestres modernistas das décadas pré-guerra, o custo foi de 1.8 milhões de euros dos contribuintes no percurso de dois anos. O resultado, durante esse tempo, foi a descoberta da ligação da proveniência das obras aos seus respectivos herdeiros de apenas cinco obras.

Em 1998, 44 nações signatárias apoiaram a Washington Conference Principles que exigia aos museus que identificassem obras de arte provenientes de roubos da parte de Nazis para uma devolução justa àqueles que foram forçosamente expropriados. A realidade, contudo, é que muitos museus de arte adoptam atitudes legais defensivas e a-históricas para defender as obras das suas colecções e se recusar a investigar as suas proveniências. Nesse aspecto, a empresa de pizzas congeladas Dr. Oetker é um exemplo para todas as instituições: apesar dos custos, o processo está-se a mostrar frutífero, acima de tudo graças à amigabilidade entre a empresa e os herdeiros.

A empresa – que nenhuma ligação tem com o Washington Conference Principles – demonstra assim o espírito que seria da competência das instituições que o negam.

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